sábado, 25 de março de 2017

Mastodon - Os Últimos Imperadores

Texto publicado em parceria com o Meia de Rock.

Aos que por aqui passam, provavelmente já se aperceberam do carinho musical de grande amplitude que por cá paira. É verdade de A a Z, do Rock ao Jazz ao Synthpop ao R&B... Se é Som que me puxa, então certamente encontrar-me-ão, e com os Mastodon a receita está servida!

Photo: Unknown

Em 2011, um Jedi minhoto de palavrão aguçado a quem tenho a sorte de chamar amigo ofereceu-me uma cópia do fantástico The Hunter. Inicialmente não escondi o meu cepticismo, afinal de contas a minha cultura Metal encontrava-se resumida nos discos dos Tool, Pantera e Meshuggah. Que raio poderia superar esta santíssima trindade?! Pois... Conseguiram-no temas épicos e gloriosos como Curl Of The Burl, BlasteroidOctopus Has No Friends e Dry Bone Valley. Ora aqui se encontrava uma banda capaz de me surpreender com tudo aquilo que os sentidos ansiavam: riffs de tal forma arrepiantes que a pele de galinha nunca serviria como comparação e compassos tão ímpares que fariam o Pitágoras repensar o seu maldito teorema! The Hunter foi a porta de entrada, o rastilho que iluminou o caminho e mantinha-se incessantemente em rotação no momento em que levei as mãos à cabeça ao descobrir Crack The Skye (2009). Continuei a regressão através das paisagens floydianas de Blood Mountain (2006) e o underground Slayer-esque de Leviathan (2004). O dano estava feito e eu estava totalmente viciado! Afinal, depois de Crosby, Still, Nash & Young não houve outra banda onde todos fizessem valer os dotes vocais... E isso tem de somar pontos em qualquer escala de espectacularidade! 
O quarteto de Atlanta - Troy Sanders, Brent Hinds, Bill Kelliher e Brann Dailor - está neste momento a dias de lançar o sucessor de Once More 'Round The Sun (2014), com o inspirador título Emperor Of Sand. Trata-se de um álbum conceptual que nos traz a história de um tipo com a cabeça a prémio que caminha sem rumo pelo deserto. Metáfora rocambolesca para a perda de entes queridos... Onde é que eu já vi esta sinopse Mad Max? Venham mas é de lá esses fragmentos de psicadelismo encapsulados em solos épicos!!!

Mais ácidos para a viagem na Página Oficial, Facebook e Youtube.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Memória de Peixe - Big Bada Boom

Texto publicado em parceria com o Meia de Rock.

Estou finalmente sentado no centro da sala. Acabo de ouvir Himiko Cloud e mantenho-me, se não se importam, boquiaberto. Não é para menos. O segundo álbum de originais dos Memória de Peixe, eleva muito, mas mesmo muito, o padrão do que por estas terras se produz. Como se tal não fosse suficiente é também capaz de sacar o Fio de Beque do marasmo musical em que se encontrava mergulhado. Enfim, duas tarefas hercúleas!

Photo: Instagram Oficial

Recuo a 2012, às Caldas da Rainha, cidade de pedigree artístico, para relembrar o advento deste duo cujo nome denuncia uma parte da sua base musical. O primeiro registo, o homónimo Memória de Peixe apresentava-se dono assumido de uma complexidade algo ingénua, fruto de um amor extremamente abrangente e descomprometido por música, da boa está claro. Estes elogios não são em vão e são culpa de uma ideia original do mastermind Miguel Nicolau, cuja composição e montagem de curtos loops de guitarra eram sobrepostos à batida do então baterista Nuno Oliveira. Uma pedrada no charco e a onda estava lançada.
Até ao presente a sucessão de dias contou-se por via de grandes concertos, por cá, por lá, novos amigos e admiradores, novas composições, novos sons e visuais fantásticos - testemunhem a coreografia de 7/4 e os unicórnios mentais de Arcadia Garden. Os Memória de Peixe passaram quatro anos mergulhados no turbilhão clássico de quem se encontra em constante evolução sabendo no entanto exactamente o que quer e como em tudo, este processo conta com avanços, recuos e revoluções. É desta forma que à equação se junta Marco Franco, um dos extraordinários Tim Tim Por Tim Tum. Desde logo a mudança faz-se sentir nos arranjos ao vivo e que apontam as coordenadas do que está por vir. A escrita torna-se mais leve, enganadoramente menos pensada mas claramente mais madura e desafiante, dando lugar a espaços enormes, sem nunca descurar o entrosamento e coesão musical. A imagética à qual recorrem não é menos impressionante contando, para efeitos de elevação da fasquia, com a ajuda dos artistas plásticos Andy Singleton e Carlos Gaspar. 
Himiko Cloud é um blast sónico, um oceano de bom gosto, uma reavaliação das infinitas possibilidades e potenciais encerrados na irmandade simples, eterna e sagrada da guitarra e bateria. Anseiam por Jazz, Rock Nintendo, vielas de compassos ímpares, paisagens utópicas, caricaturas de tons pastel, princesas de porcelana e por fim não ter de aturar os versos fingidamente sentidos sobre o final de relação de mais um poeta que escreve tudo mas não diz nada? Aproveitem, este é para vocês. Ouçam-no bem alto que ele merece!

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domingo, 31 de julho de 2016

Temple Of The Dog - A Quintessência do Rock

Texto publicado em parceria com o Meia de Rock.

Para mim tudo começou com alguém que tinha um irmão mais velho lá no Porto que namorava com uma inglesa que pelos vistos era alta coleccionadora de música - numa altura em que coleccionar música ainda era muito cool. Assim, nestes meros graus de separação uma cassette com a cópia da cópia do primeiro e único álbum dos Temple Of The Dog veio parar-me às mãos. A horrível matryoshka de gravações custou-me quase 200 paus mas valeu cada escudo que paguei por ela. 

Photo: Unknown

Em 1990 os Mother Love Bone andavam a espalhar charme a partir da Seattle natal e desde aí planeavam governar o mundo com o lançamento de Apple. Quis o destino trocar-lhes as voltas, quando Andrew Wood, o vocalista prima donna com a desmedida sensibilidade poética de um Jim Morrison e a pinta de uns Axl Rose meets Janis Joplin, cedeu aos demónios pessoais deixando-se levar na ponta de uma maldita agulha.
Quis também o destino que esta partida não fosse em vão, inspirando o seu grande amigo Chris Cornell, a toda-poderosa voz dos Soundgarden, a escrever um punhado de canções que serviriam igualmente como catarse e resolução de luto. No London Bridge Studio, pegou nos talentos de Matt Cameron - baterista dos Soundgarden - Stone Gossard e Jeff Ament - à época guitarrista e baixista nos Mother Love Bone e posteriormente membros fundadores dos Pearl Jam - Mike McCready - solista nos Pearl Jam, um Stevie Ray Vaughan da era moderna e provavelmente o guitarrista mais subvalorizado da sua geração - e por fim Eddie Vedder - acabado de chegar da California para se tornar o eterno vocalista dos Pearl Jam - e em conjunto gravaram durante duas semanas uma das homenagens mais sentidas e épicas alguma vez transpostas para fita. Os Zeppelin, o Hendrix, o Rock FM, um sentimento inabalável de amizade e o peso, O FILHA DA MÃE DO PESO, estavam todos lá quando o homónimo Temple of The Dog nos chegou em 1991, fazendo justiça a tudo o que Andrew Wood significava.
Passados 25 anos e uma dura e vergonhosa batalha legal a banda conseguiu recuperar as master tapes, tendo previsto para Setembro uma reedição luxuosa do álbum, seguida de uma curta tour - a primeira! - pelos Estados Unidos. Afinal não nos podemos esquecer que o Rock'n'Roll foi inventado para que discos destes fizessem História!

domingo, 17 de julho de 2016

You Can't Win, Charlie Brown - Oh Really?!

Photo: Vera Marmelo
Das eternas personagens criadas por Charles M. Schulz para a série Peanuts, Charlie Brown será provavelmente a mais complexa. Sofredor e derrotista nato, acaba por habitar num mundo de auto incutida insegurança a quem apenas os amigos emprestam alguma cor e optimismo. Tal não impede que uma vez por outra não possa ser ele o ganhador. Basicamente retiramos uma verdade prática destas singelas vinhetas de banda desenhada: Há um Charlie Brown em cada um de nós, meros mortais. Uma vitória por cada cinco derrotas e dizem os mais resignados que se assim continuar nem se trata de uma média má. É apenas a vida.
No início de 2009 Afonso Cabral, Salvador Menezes, Luís Costa e David Santos, a.k.a. Noiserv, decidiram levantar o dedo do meio à ideia de um mundo cinzento e reuniram-se, quais meninos à volta da fogueira, para formar os You Can't Win, Charlie Brown. O EP homónimo foi editado nesse mesmo ano e ao quarteto adicionou-se o tempero que faltava com as presenças de Tomás Sousa e João Gil. A crítica, essa, já há muito lhes tinha estendido a passadeira vermelha. Com o primeiro álbum Chromatic (2011), lançado pela fantástica Pataca Discos, alargaram ainda mais o espectro de influências ao piscarem o olho não só às guitarras de cantautor contemporâneo mas também a uma Pop digna da fotografia de Sophia Coppola. A curva ascendente continuou com o incrível Diffraction/Refraction (2014) de onde nascem momentos de brilhante poesia sonora e visual como Be My World e After December. Mais recentemente enquanto conduzia pelas estradas que serpenteiam os infinitos pomares do Oeste, a companhia da rádio surpreendeu-me com a estreia da nova Above The Wall, o primeiro avanço de Marrow - Ao terceiro trabalho de originais provam-nos que nem tudo está podre no Reino da Dinamarca. Confesso que a reminiscência do Walls de Apparat fez com que não reconhecesse imediatamente a sonoridade mais própria da banda e o contágio da batida foi tão grande que chegou a tornar perigoso o facto de estar alguém atrás do volante... Tentem lá não bater aquelas palminhas!
Enquanto aguardo ansiosamente por Setembro aproveito para partilhar a minha interpretação da moral da história: não deixa de ser uma doce ironia que um grupo chamado You Can't Win, Charlie Brown tenha uma carreira já tão recheada de pontos altos e ao mesmo tempo possa ainda orgulhar-se de ter à espera um rasgado sorriso no horizonte. Carlos, afinal nem tudo isto é Fado.

A celebração continua na Página Oficial, Facebook e Youtube.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Boogarins - Sinestesia Lisérgica

Texto publicado em parceria com a Scratch Magazine.

Photo: Marco Hermes
É Inegável. Vivemos numa época de redes sociais, informação maçadora, de massas, em massa. De conteúdos inúmeras vezes supérfluos e de uma aparente estupidificação colectiva.
Se deixarmos são eles que ditam a tendência e tornam tão difícil remar contra a maré. Admitam lá, é muito mais conveniente o "deixa andar" tão caracteristicamente desporto nacional! Portanto, quando o ponteiro do medidor de idiotice se aproxima perigosamente da linha vermelha, saio de casa e apanho um pouco de sol enquanto arrasto preguiçosamente os membros até à loja de discos mais próxima. Nos dias que correm não há nada como um bom álbum para repor a força e a sanidade!
Foi totalmente deslocado e entre o pó de uma bancada dedicada ao Jazz que encontrei o Manual, ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos. Provavelmente abandonado por um melómano mais despistado, a verdade é que assim foi como se me apresentaram os Boogarins. Brasileiros naturais de Goiânia, consigo ouvir na sua música influências tão abrangentes como aquelas que se expandem desde os eternos Mutantes à Flora Purim do Return to Forever de Chick Corea, ou dos Mogwai aos Sigur Rós passando ainda pelo A Trick Of The Tail dos Genesis. No fundo dá para perceber que Dinho Almeida, Benke Ferraz, Raphael Vaz e Ynaiã Benthroldo não estão de todo resignados e utilizam esta amálgama de psicadelismo sonoro como válvula de escape à estandardização que nos assola diariamente. Após a estreia com a edição d'As Plantas que Curam (2013) conseguem com este Manual... (2015) tornar-se ainda mais livres percorrendo o caminho que apenas quem realmente o é pode traçar. Oxalá assim se mantenham. Conto-vos que ao regressar sentei-me alegremente na companhia dos Boogarins e dos meus auscultadores, não conseguindo deixar de esboçar um sorriso enquanto reparava na descida do maldito ponteiro.

Mais cor, alegria e coisas bonitas no Facebook, Twitter e Spotify.

domingo, 19 de junho de 2016

The Claypool Lennon Delirium - Rita Lina

The Claypool Lennon Delirium - Monolith of Phobos
Por estas bandas há pelos eriçados, arrepios histriónicos, palminhas de golf e berrinhos esganiçados sempre que Les Claypool decide ir a jogo. Justifica-se, pois trata-se de um músico dono de talentos sobrenaturais e líder dos eternamente subvalorizados Primus. Vocês sabem, aquela banda que só se arriscou a melhorar a Silly Putty de Stanley Clarke.
Recentemente em tour, encontrou em Sean Lennon - filho de John e Yoko e integrante dos The Ghost of a Saber Tooth Tiger - uma alma gémea, tão artisticamente inquieta quanto a sua. Após algumas jams menos sérias a brincadeira assumiu contornos mais adultos passando então a sessões musicais intermináveis inspiradas, tal como descrito por ambos, pelos deuses do Pinot Noir. Sim, porque estes meninos têm toda a pinta de quem se trata bem e claramente sabem muito no que toca a misturar trabalho com prazer.
Tanta hiperactividade compensou e em pouco mais de um mês nasceram os 10 temas que compõem Monolith of Phobos, álbum que num universo paralelo é nem mais nem menos que a soma do Joe's Garage de Zappa e o Magical Mystery Tour dos Beatles. Les Claypool assumiu sem cerimónias o baixo e Sean Lennon, pelos vistos para surpresa de muitos, a bateria e a guitarra. Em conjunto recuperaram o vício do Mellotron. Da improvável parceria surge uma obra que faz corar de vergonha aquelas vozes ácidas que há muito votaram o Prog ao esquecimento. Acredito que não será uma venda fácil mas neste caso os senhores bateram à porta certa.

Mais mescalina na Página Oficial e Facebook.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

SOIL & "PIMP" SESSIONS - Japanese Connection

Photo: Unknown
Incrível era eu começar este texto a contar-vos balelas sobre a fantástica viagem que fiz ao Japão, arquipélago de múltiplos fascínios dos quais se contam a temível Yakuza e o Kit Kat de Maçã de Shinshu. Mas na verdade a realidade impõe-se à ficção e a música que hoje vos trago chegou-me desde Tokyo... Via Mirandela. Os SOIL & "PIMP" SESSIONS apareceram numa pausa para um fino numa quente noite de Verão. O dono do bar possuía um indiscutível talento para o bom gosto e entre tantos outros nomes, que obviamente anotei, este foi o que mais curiosidade suscitou. Provou-me o óbivo: afinal nem todos os transmontanos são ignorantes e desdentados.
Apresento-vos um sexteto de virtuosos samurais oriundo das noites infinitas de Scratch e Jazz da capital japonesa e que existe para nos lembrar que a fusão dos universos sonoros de James Bond, Quentin Tarantino e Shaft é de facto possível. Mesmo assim eles preferem chamar-lhe Death Jazz. Os metais de Tabu Zombie e Motoharu, o piano de Josei, o baixo de Akita Goldman e a bateria de Midorin são comandados desde logo por Shacho (imaginem uma versão asiática do Bez). Os seis entregam-nos malhas imaculadas, frenéticas, nervosas e de um imediatismo pouco frequente nos ambientes jazzísticos mais conservadores. De 2004 ao presente editaram 10 álbuns - dos quais destaco Pimpoint (2007) e 6 (2009) - carregaram os instrumentos pelos festivais mais mediáticos, contribuíram para bandas sonoras de Anime, reuniram o amor de Gilles Peterson e mesmo assim continuam a escorregar de forma inacreditável entre os dedos do reconhecimento merecido! Por aqui chegou o momento de servir um pouco da boa e velha justiça poética.

Sendo fluentes em Japonês aventurem-se no Facebook e na Página Oficial.

domingo, 1 de maio de 2016

Hiatus Kaiyote - Feiticeiros de Oz

Photo: Wilk
Deste lado do globo a Australia chega-nos frequentemente representada nas imagens de Crocodile Dundee, Steve Irwin, Mad Max, tempestades apocalípticas, koalas e cangurus, paisagens de beleza impossível, o Outback, a maldita cerveja Foster e a Opera House... 
Obviamente, o imenso país da Oceânia é muito mais do que um aglomerado aleatório de estereótipos. A música que sempre nos ofereceram e que ultimamente se encontra mais mediatizada graças a maravilhas como Tame Impala ou Chet Faker é disso um perfeito exemplo. Portanto é com prazer redobrado que o Fio de Beque escreve hoje sobre os completamente espectaculares Hiatus Kaiyote! A banda de Melbourne integrada por Paul Bender, Perrin Moss, Simon Mavin e liderada pela carismática Nai Palm - claramente pun intended - pratica aquilo que se poderia definir como pseudo-soul-jazz-funk-8bit-fantástico-visionário e ao segundo álbum carregam já o peso de duas nomeações Grammy e singulares manifestações de apreço de músicos que venero pessoalmente como Erykah Badu, ?uestlove, The Dirty Projectors ou mesmo Prince. Descobri a pólvora com Choose Your Weapon (2015), sucessor de Tawk Tomahawk (2012) - ambos da casa Flying Buddah - no som do single Breathing Underwater. Vamos lá ver, mas afinal quem são as almas insolentes que se arriscam a escrever música com tal dinâmica? "E só porque sim também nos apeteceu homenagear a Atari, o R&B mais puro e a utilização perfeita de um Fender Rhodes!" Sim, são mesmo bons a esse ponto!
Há uns tempos perguntava-me inocentemente o que o futuro da música nos teria reservado, obviando o facto de que a mesma encontra sempre o seu caminho e que por vezes não é necessária tanta preocupação. Os Hiatus Kayiote são disso a melhor prova!

A jogar Space Invaders na Página Oficial, Facebook e Youtube.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Prince - Elegia da Irreverência

Photo: NPG Records
Tento que a poeira assente. Afinal o receio que se impõe é não ter as palavras certas, ou certeiras para expressar a influência que o seu génio teve em mim. Hoje recuso-me a seguir a estrada do lamento. Prince foi um personagem em tudo maior que a própria vida e alguém que se rege por tal filosofia certamente não deseja que lhe dediquem nenhum luto taciturno. 
Escrevo pela necessidade de o celebrar e à Música que nos marcou. Tenha a certeza que seria a sua vontade.
Tive a felicidade de crescer num ambiente preenchido com guitarras, álbuns e gira-discos a rodar em horas extraordinárias. No fundo a Música foi sempre o 5º elemento lá de casa. Do Jazz ao Prog, da Pop ao Metal imensas foram as influências. Esta mente inquieta era um poço sem fundo de tudo o que soasse decente e o critério, esse, sem haver bom ou mau, era apenas um: o do próprio. Foi assim que Prince se tornou um convidado assíduo no meu crescimento, primeiro com o excelente Sign O' The Times e mais tarde com o infame Love Symbol Album. Tinha nove anos quando cheguei à escola a dar um beijinho ao ar antes de exclamar "you sexy madafaakaaa"! Creio que os meus pais nunca entenderam muito bem o conceito de Parental Advisory...
Prince nunca partiu de preconceitos e todos os aspectos eram levados ao extremo sendo explorados ao mais ínfimo pormenor. O resto era adereço: lembrem-se sempre que despediu a gigante Warner e celebrou-o com a edição de Emancipation, um álbum conceptual triplo (!!!). Não havia modas, não havia estilos, não havia youtube nem havia stream. O homem compunha quatro solos só porque a Música pedia três. Quando alguém apontava à direita a direcção, já se sabe, seria a esquerda.
Não tardei em colocá-lo no mesmo pedestal de Zappa. Afinal ambos encaravam a Música como uma entidade suprema, com o derradeiro poder transformador e aglutinador sobre tudo o que a rodeava. Já não estão os dois e o mundo torna-se assim um local mais pobre. 
Demorei a entregar-me a este texto, porque na verdade algumas partidas são difíceis de assimilar. Só nos resta dançar ao som do que de melhor nos deixou: toneladas de groove e funk. Hoje, porque ele me pediu, decidi voltar a ser aquele puto de nove anos. E por um instante fui feliz.


domingo, 10 de abril de 2016

Red Hot Chili Peppers - Psychedelia & Fungagá

Photo: Mark Ryden
Apresento-vos A teoria de conspiração sobre a inacreditável história do mashup entre uma banda californiana de sucesso estratosférico e um filósofo português, cantor de intervenção e temas infantis... 

One Hot Minute foi editado em 1995, quatro anos após o estrondoso sucesso de Blood Sugar Sex Magik. Nunca concordei com as críticas negativas que recebeu, preferindo manter-me do outro lado da barricada, aquele que ainda hoje acredita ser totalmente improvável os Red Hot Chili Peppers comporem um álbum declaradamente mau. Ok, John Frusciante, guitarrista extraordinaire e responsável em grande medida pelo carisma peculiar da banda, havia abandonado o barco sem aviso prévio e mesmo com a produção imaculada de Rick Rubin e a entrada de Dave Navarro o som não mais foi o mesmo. Mesmo assim creio que a Força nunca os abandonou: Flea, Chad Smith e Anthony Kiedis mantiveram a química intacta e deste disco saíram malhas tão épicas como Warped, Deep Kick, Falling Into Grace ou Walkabout! E é precisamente a última que ainda inspira a inquietação mirabolante que me traz aqui hoje.
Walkabout conta-nos a história de um tipo que decide vaguear sem rumo aparente e que o faz num tom despreocupado, muito na onda de um Bugs Bunny gingão a mascar tranquilamente uma cenoura mergulhada em ácidos. O seu início incorpora elementos de Blaxploitation que desaguam numa linha de baixo e num wah-wah contagiantes, emprestando ainda mais cor àquela imagem. A primeira vez que a ouvi não consegui conter o espanto ao notar que o bridge é uma adaptação descarada do Fungagá da Bicharada. Sim, o nosso Fungagá, o Fungagá português... Estamos a falar do mesmo Fungagá escrito por José Barata-Moura para o programa apresentado por Júlio Isidro! Os malditos Red Hot Chili Peppers ouviram o Fungagá da Bicharada e espetaram-no no meio de uma canção! Será que alguém lá no estúdio andava com um walkman (estávamos em 95 meninos...) a ouvir uma compilação de temas infantis portugueses da década de 70?! E se sim, como raio é que isso chegou à California?! Estaria a banda num momento crítico e a melhor ideia de desbloqueio criativo passou pelo Fungagá?! Será que telefonaram a José Barata-Moura a contar-lhe esse momento Eureka?! Alguém gravou a conversa?! São 20 anos de questões pertinentes sobre as quais é necessário reflectir, pois estamos aqui a tratar de um life changing event da música nacional! 
Por enquanto está confirmado o regresso ao estúdio, desta vez com Danger Mouse na cadeira do produtor, podendo um novo álbum ver a luz do dia ainda este ano. Sabe-se que grande parte da composição está a decorrer durante as gravações pelo que tentei obter esclarecimentos sobre uma eventual adaptação de Joana Come a Papa... Ainda não obtive resposta.


News Flash: E foi assim, ao denunciar 20 anos de injustiça para com José Barata-Moura, que o Fio de Beque obteve os seus 5 minutos de fama! Obrigado ao Nuno Markl e a toda a equipa das Manhãs da Rádio Comercial por emprestarem tanto bom humor às minhas palavras!